O que é ser professor
hoje?
Quem sou eu (professor)
neste contexto?
Ser professor hoje é no
mínimo complicado, para não dizer outras coisas. Para pensar um
pouco sobre o tema, talvez fosse bom pensarmos o que era ser
professor num passado não muito distante.
O professor era sem
dúvida mais respeitado, ou temido não sei, mas lembro-me bem da
postura que todos tínhamos em sala de aula quando da presença de um
deles. Ele era o guardião do conhecimento e das informações.
Muitas vezes não podíamos debater, nem mesmo opinar sobre um
assunto, por ser considerado desrespeito. O lado bom disso tudo era a
disciplina, o respeito pelos mais velhos e pelo local de estudo, bem
como o sentimento de que havia uma autoridade a quem se submeter e
prestar contas. Sabíamos que haveria punição se agíssemos de
forma errada, tanto na escola como em casa.
Havia porém um lado
negativo também nesta questão e que gera polêmica até hoje nos
pensadores da educação brasileira. O excesso de poder e autoridade
sempre trazem consigo a possibilidade de arbitrariedades e
injustiças, que efetivamente ocorriam. A grande crítica a esse tipo
de problema e o fácil acesso às informações que temos nos dias de
hoje produziram uma verdadeira revolução nas relações entre pais,
professores, filhos, alunos e instituições de ensino. Acredito que
para fugir de um extremo, fomos parar bem perto do outro. Em lugar de
uma disciplina rígida, a falta quase total dela. Os valores ficaram
confusos e a falta de limites gerou conflitos entre pais, filhos e
professores que beiram o besteirol. As famílias delegando a função
de educar para a escola e agindo como fiscal desta educação em
lugar de co- participantes deste processo. Em muitas instituições
de ensino, principalmente as particulares, o professor muitas vezes
fica literalmente na berlinda, entre a cruz e a espada, no meio de
pais, alunos e dirigentes que consideram não raramente o aluno como
cliente e negócio e não com um ser humano em formação.
Como professor hoje neste
contexto, só consigo enxergar o processo de uma forma. Tento agir
como companheiro de viagem. Tento passar experiência, valores,
limites, noções de saúde , ética, higiene e cidadania. Sempre um
pouco amigo, mas ao mesmo tempo distante, para não ficar refém de
situações de violência e desrespeito como já tenho presenciado.
Tenho muitos alunos educados, diria até alunos à moda antiga e
tenho a facilidade de trabalhar com educação física, que têm um
apelo forte com os alunos. Às vezes coloco em cheque o valor do meu
trabalho na formação destes alunos, mas há sempre aqueles que te
motivam quando voltam à escola para uma visita contando do seu
êxito e dizendo da importância que nossa instituição teve em sua
vida.
Recursos tecnológicos
também tendem a exercer fascínio sobre os alunos; vejo meus alunos
se relacionarem virtualmente, buscarem sempre a resposta do google
antes de qualquer outra fonte. Aparentemente, o professor perdeu sua
importância, pois pode-se aprender sobre tudo num FAQ na internet.
Enquanto isso, as avaliações dão a impressão de cada se sabe
menos. Parece que o aluno está na ilusão de que basta ver fazer
para saber fazer. Este aluno moderno goza de liberdades e
flexibilidades jamais sonhadas por nós de gerações anteriores, mas
precisa saber tirar proveito deste leque de possibilidades, se tornar
co-autor, empreendedor. Sem orientador, alunos tendem a usar apenas a
face lúdica da tecnologia, mas apoiados por um professor
qualificado, podem direcionar sua criatividade para objetivos mais
nobres.
Para reafirmar seu papel,
mostrar que não é dispensável, o próprio professor precisa
redefinir sua função. Se informar é desnecessário - a “net”
faz - devemos ajudar na coleta da informação, direcionar a pesquisa
quando o aluno se perde em meio a tanta informação, induzi-lo a
questionar a origem e veracidade, comparar com outras fontes... E
esta mudança de mentalidade não deve ser apenas da classe docente,
mas também da discente que precisa descobrir o sabor da descoberta,
o prazer de construir sua verdade particular a partir de tantas
verdades consultadas.
O professor que deseja se
integrar a este novo contexto necessita de capacitação, pois
presenciamos desconfiados esta enxurrada de tecnologia nos afogar,
enquanto os alunos, nascidos neste “mar” navegam livres e sem
orientação. Se os alunos se sentem tão à vontade no uso da
tecnologia, esta deve ser a ferramenta utilizada nas aulas. Como
companheiras de viagem as classes docente e discente podem navegar
juntas, onde o professor poderá ajudar o aluno a usar a
criatividade, também ser autor e construir o senso crítico, que a
informação tão desorganizada e “embaçada” requer. Neste
processo, alunos deixam de ser passivos, desenvolvem competências e
habilidades previstas para seu desenvolvimento não só acadêmico,
mas também como cidadão. O professor também se beneficia, pois seu
papel como orientador é facilmente aceito pelo aluno, arredio à
hierarquia.
Informações
amanhã certamente estarão obsoletas, mas todo o esforço da
parceria professor – aluno na busca, na seleção, no questionar e
apresentar um determinado conteúdo desperta habilidades antes
desconhecidas para ambos. Como em qualquer relacionamento, este
também sofrerá momentos de crise. Talvez o professor antenado com a
tecnologia não seduza todos seus alunos, não tenha cem por cento de
aproveitamento, mas quem disse que sempre precisamos ganhar e dar
nota dez a tudo? O melhor é saber que evoluímos e que fomos parte
na evolução pessoal de nossos alunos.
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