O que é ser professor hoje? ( escrito em parceria com Débora Barros)


O que é ser professor hoje?


Quem sou eu (professor) neste contexto?


Ser professor hoje é no mínimo complicado, para não dizer outras coisas. Para pensar um pouco sobre o tema, talvez fosse bom pensarmos o que era ser professor num passado não muito distante.
O professor era sem dúvida mais respeitado, ou temido não sei, mas lembro-me bem da postura que todos tínhamos em sala de aula quando da presença de um deles. Ele era o guardião do conhecimento e das informações. Muitas vezes não podíamos debater, nem mesmo opinar sobre um assunto, por ser considerado desrespeito. O lado bom disso tudo era a disciplina, o respeito pelos mais velhos e pelo local de estudo, bem como o sentimento de que havia uma autoridade a quem se submeter e prestar contas. Sabíamos que haveria punição se agíssemos de forma errada, tanto na escola como em casa.
Havia porém um lado negativo também nesta questão e que gera polêmica até hoje nos pensadores da educação brasileira. O excesso de poder e autoridade sempre trazem consigo a possibilidade de arbitrariedades e injustiças, que efetivamente ocorriam. A grande crítica a esse tipo de problema e o fácil acesso às informações que temos nos dias de hoje produziram uma verdadeira revolução nas relações entre pais, professores, filhos, alunos e instituições de ensino. Acredito que para fugir de um extremo, fomos parar bem perto do outro. Em lugar de uma disciplina rígida, a falta quase total dela. Os valores ficaram confusos e a falta de limites gerou conflitos entre pais, filhos e professores que beiram o besteirol. As famílias delegando a função de educar para a escola e agindo como fiscal desta educação em lugar de co- participantes deste processo. Em muitas instituições de ensino, principalmente as particulares, o professor muitas vezes fica literalmente na berlinda, entre a cruz e a espada, no meio de pais, alunos e dirigentes que consideram não raramente o aluno como cliente e negócio e não com um ser humano em formação.
Como professor hoje neste contexto, só consigo enxergar o processo de uma forma. Tento agir como companheiro de viagem. Tento passar experiência, valores, limites, noções de saúde , ética, higiene e cidadania. Sempre um pouco amigo, mas ao mesmo tempo distante, para não ficar refém de situações de violência e desrespeito como já tenho presenciado. Tenho muitos alunos educados, diria até alunos à moda antiga e tenho a facilidade de trabalhar com educação física, que têm um apelo forte com os alunos. Às vezes coloco em cheque o valor do meu trabalho na formação destes alunos, mas há sempre aqueles que te motivam quando voltam à escola para uma visita contando do seu êxito e dizendo da importância que nossa instituição teve em sua vida.
Recursos tecnológicos também tendem a exercer fascínio sobre os alunos; vejo meus alunos se relacionarem virtualmente, buscarem sempre a resposta do google antes de qualquer outra fonte. Aparentemente, o professor perdeu sua importância, pois pode-se aprender sobre tudo num FAQ na internet. Enquanto isso, as avaliações dão a impressão de cada se sabe menos. Parece que o aluno está na ilusão de que basta ver fazer para saber fazer. Este aluno moderno goza de liberdades e flexibilidades jamais sonhadas por nós de gerações anteriores, mas precisa saber tirar proveito deste leque de possibilidades, se tornar co-autor, empreendedor. Sem orientador, alunos tendem a usar apenas a face lúdica da tecnologia, mas apoiados por um professor qualificado, podem direcionar sua criatividade para objetivos mais nobres.
Para reafirmar seu papel, mostrar que não é dispensável, o próprio professor precisa redefinir sua função. Se informar é desnecessário - a “net” faz - devemos ajudar na coleta da informação, direcionar a pesquisa quando o aluno se perde em meio a tanta informação, induzi-lo a questionar a origem e veracidade, comparar com outras fontes... E esta mudança de mentalidade não deve ser apenas da classe docente, mas também da discente que precisa descobrir o sabor da descoberta, o prazer de construir sua verdade particular a partir de tantas verdades consultadas.
O professor que deseja se integrar a este novo contexto necessita de capacitação, pois presenciamos desconfiados esta enxurrada de tecnologia nos afogar, enquanto os alunos, nascidos neste “mar” navegam livres e sem orientação. Se os alunos se sentem tão à vontade no uso da tecnologia, esta deve ser a ferramenta utilizada nas aulas. Como companheiras de viagem as classes docente e discente podem navegar juntas, onde o professor poderá ajudar o aluno a usar a criatividade, também ser autor e construir o senso crítico, que a informação tão desorganizada e “embaçada” requer. Neste processo, alunos deixam de ser passivos, desenvolvem competências e habilidades previstas para seu desenvolvimento não só acadêmico, mas também como cidadão. O professor também se beneficia, pois seu papel como orientador é facilmente aceito pelo aluno, arredio à hierarquia.
Informações amanhã certamente estarão obsoletas, mas todo o esforço da parceria professor – aluno na busca, na seleção, no questionar e apresentar um determinado conteúdo desperta habilidades antes desconhecidas para ambos. Como em qualquer relacionamento, este também sofrerá momentos de crise. Talvez o professor antenado com a tecnologia não seduza todos seus alunos, não tenha cem por cento de aproveitamento, mas quem disse que sempre precisamos ganhar e dar nota dez a tudo? O melhor é saber que evoluímos e que fomos parte na evolução pessoal de nossos alunos.


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